HISTÓRIA

20; a Academia de Oratória; o Diretório Acadêmico – criado, para representação estudantil oficial, por força da reforma do ministro Francisco Campos de 1931 e absorvido pelo CACO a partir de 1943; o Centro Acadêmico de Estudos Jurídicos e Sociais – CAJU (fundado em 1927), organização de estudos que reunia estudantes à época mais orientados ideologicamente à direta como San Tiago Dantas, Antonio Galotti, Chermont de Miranda, Américo Lacombe, Otávio Farias, Plínio Doyle e outros – muitos trocariam de posição ideológica no transcurso da vida; e o CLUBE DA REFORMA, do qual fizeram parte Evandro Lins e Silva e Carlos Lacerda. Todas entidades autônomas e que complementavam a formação que a Faculdade oferecia.

Nelas se debatia, estudava, fazia-se política, bebia-se e, claro, serviram para forjar grandes amizades. Davam vida a Faculdade e até funcionavam, de certo modo, como fraternidades. Segundo Evandro Lins e Silva, o objetivo do CLUBE DA REFORMA “(...)era discutir, debater política, salvar o mundo ... Também melhorar as condições da faculdade....”O CLUBE DA REFORMA rivalizava com o CAJU, mas não era, na origem, essencialmente de esquerda, apesar de ter congregado muitos estudantes que vieram a militar no Partido Comunista. Evandro Lins e Silva situa a data de criação do CLUBE DA REFORMA em 1932.

Seus fundadores foram, entre outros, Alceu Marinho Rego (seu primeiro “líder” e idealizador), Miguel Monteiro de Barros Lins, Mauro Barcelos, Hugo Meira Lima, Célio Barcelos e Cesar Luchetti. Integraram este clube Chagas Freitas, Haroldo Mauro, Jaime Assis de Almeida, Carlos Lacerda e Evandro Lins e Silva, que chegou a presidi-lo. Dentre os professores, as figuras que influenciavam no Clube eram o Edgardo de Castro Rebelo e o Leônidas Rezende.

O CLUBE DA REFORMA era uma espécie de “Laboratório da Política” de estudantes muito jovens, a maioria com menos de 20 anos. Idealizado por Alceu Marinho Rego, um “monarquista” que depois adotou posições de esquerda, foi inicialmente criado para que ele fosse literalmente, o monarca, ainda que denominado “Presidente”. O estatuto trazia uma “sistema parlamentar”, no qual o presidente era cercado de uma “Câmara de Pares”, uma espécie de gabinete, dirigido pelo “Primeiro Par”. Miguel Lins foi o “Primeiro Par”, uma espécie de primeiro ministro. Alceu era tido como um jovem dinâmico, por vezes autoritário, “irrequieto, dominador, imaginoso, espírito criador e cheio de ambições políticas”, tendo morrido muito cedo, sem poder realiza-las. Ao seu lado estava o irreverente e sarcástico Miguel Lins, muito querido por todos.

Longe de ser uma brincadeira, era um clube de debates, que organizava conferências e propunha algumas ações politicas. Naturalmente, fervilhavam posições para todos os lados. A primeira oposição ao autoritarismo de Alceu foi tomada pela dupla Haroldo Mauro e Jaime Assis de Almeida. Chagas Freitas, que integrou o primeiro gabinete ou “Câmara de Pares”, também divergia. Foi quando ingressou no Clube o jovem Carlos Lacerda, que estudaria na Faculdade entre 1932 e 1934. Com 18 anos e militante comunista, Lacerda incendiou o clube e formou um bloco de oposição, congregando os elementos de esquerda ou, no dizer de...., “de fluída e não de nítida conotação esquerdista”.Num evento do Clube da Reforma no salão do Instituto Nacional de Música, Lacerda faz um discurso radical e ganha o auditório. Logo depois, apresenta o voto de desconfiança – exatamente como ocorre no regime parlamentarista – contra a Câmara dos Pares, com “diabólico talento acusatório”, o mesmo que ele exercitaria anos depois na política. A moção foi aprovada e o gabinete caiu. Alceu renunciou e, como Miguel não estava presente, Chagas Freitas assumiu a Presidência. Quando, atrasado, Miguel chegou, foi convidado por Chagas Freitas a assumir a presidência da Assembléia, tendo dito: “- Não presido assembleia de cretinos!”. Confusão formada, Cid Correa Lopes exigiu a retratação de Miguel. Após este fato, foram realizadas duas eleições, e ambas deram empate. Somente na terceira eleição Evandro Lins e Silva é eleito, com apoio do Lacerda, derrotando Pais Barreto, candidato da dupla Alceu-Miguel.

Evandro e Alceu se formariam ainda em 1932; Lacerda abandonaria a Faculdade em 1934 e o Clube da Reforma tomaria outros rumos.

Não se sabe exatamente como, mas o espectro do CLUBE DA REFORMA dos anos 30 está ligado a origem do Movimento da Reforma (ou Movimento pela Reforma ou simplesmente “Reforma”), criado nos anos 40 como “partido acadêmico” e que, a partir da eleição do CACO de 1947, constitui-se como uma das principais e mais vitoriosas forças políticas da Faculdade na disputa pela direção do Centro Acadêmico, este desde 1943 servindo como entidade unificada de representação político-acadêmica. Observe-se que o triênio 1945-1947 foi emblemático na formação de partidos como a UDN, a Esquerda Democrática (depois PSB) e a curta experiência de legalidade do PCB. A partir deste ponto, as disputas internas do CACO passarão a representar no microcosmo político da FND o que ocorria na arena nacional. A REFORMA acabará por congregar os militantes de centro-esquerda e esquerda e a Aliança Libertadora Acadêmica - ALA os de centro-direita, sem prejuízo do surgimento de outras organizações entre 1949 e 1960, como o Grupo Independente, o Movimento Universitário Independente e outros.

Cabe a nota: posteriormente a queda do “gabinete de 1932”, Alceu Rego e Miguel Lins se tornaram muito amigos de Evandro Lins e Silva. Alceu também seria muito amigo de Carlos Lacerda, cabendo o registro de Evandro: “E o Alceu, depois, fez uma evolução política. Um belo dia, deixou a monarquia e se tomou comunista... E passou a ser muito amigo do Carlos. Tão amigo que o Carlos, quando casou, muito cedo, estava em dificuldades e morou no apartamento do Alceu, que também não era pessoa que tivesse muitos recursos.”

Alceu se tornaria jornalista, escritor e dramaturgo e, em 1945, participaria da fundação da Esquerda Democrática ao lado de João Mangabeira, Edgardo de Castro Rebelo, Hermes Lima, Hermes Lima, Chagas Freitas, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, especialmente antigos alunos e professores da Faculdade Nacional de Direito. Em 1947 estaria ao lado do amigo Evandro Lins e Silva na fundação do Partido Socialista Brasileiro. Junto aos amigos Evandro Lins e Silva, Carlos Lacerda, Samuel Wainer, Moacir Werneck de Castro e Jorge Amado participaria da revista Diretrizes, um clássico da chamada imprensa alternativa (1938-1946). Alceu faleceria no Rio de Janeiro em 1955.

Ironia do destino, o CACO, trinta anos depois de 1932, nas gestões da REFORMA, faria oposição ao então governador da Guanabara Carlos Lacerda, convertido à UDN.

Em 1977, sobre o Clube da Reforma, Lacerda diria no livro “Depoimentos”: “Dali saiu gente para todos os lados. Para o integralismo sairam alguns poucos, para o comunismo muitos, e para um vago liberalismo, alguns”.

Evandro Lins e Silva registraria parte das suas memórias do CLUBE DA REFORMA no seu livro “Salão dos Passos Perdidos” (1997) e teria uma versão mais interessante publicada na Revista da ABI (somente em 2013).

Marcos Tavolari

8 de dezembro de 2015

 

O CLUBE DA REFORMA E A TRAJETORIA DE ALCEU MARINHO REGO (1911-1955): de monarquista a socialista.

 

A atividade acadêmica na Faculdade de Direito no final da década de 1920 e início da década de 1930 não se resumia ao Centro Acadêmico Cândido Oliveira. O CACO, surgido como um grêmio jurídico-literário em 1916, de fato não foi o primeiro órgão de representação estudantil da Faculdade ou mesmo pioneiro centro de debates jurídico-literários.

Existiam muitas organizações na Faculdade, especialmente a Associação Universitária, fortíssima no final dos anos